O restaurante fechou. Os dois estavam lado a
lado sempre sorrindo. Os olhos tinham ternura e os lábios a mais perfeita
expressão de felicidade.
Eles caminhavam juntos empurrando o carrinho.
O cachorrinho, que também os acompanhava, estava todo aos pulos, numa alegria
que dava gosto de ver. Ao que parecia, era a primeira noite em que saía para
passear. Tão tarde.
O casal era todo amor e isso se refletia no
animal. Enquanto os donos andavam e andavam, lá ele estava. Abanando o rabo.
Farejando a rua. Rolando na grama. Quando a moça e o rapaz pararam, ele sentou.
Estacionaram o carrinho de supermercado ao
lado de duas grandes latas de lixo. Sem pestanejar, iniciaram os trabalhos.
Latas de alumínio. Garrafas de vidro. Papelão. Do lixo para o carrinho.
O filhote olhava de um lado para o outro numa
expressão de curiosidade contida, língua para fora e rabo sempre abanando.
Quando algum dos dois falava com ele, ele latia baixinho, afinal sabia que já
era muito tarde.
Eu, que saía do restaurante, presenciei toda
a cena. Depois do medo, deu aquela dor no coração e um nó na garganta. Os dois
olharam para mim desconfiados. Fiquei sem graça e acabei balbuciando um “boa
noite”.
Eles simplesmente sorriram para mim e
voltaram ao trabalho. Talvez tenha sido aquela a primeira vez em que eles
deixaram de ser “invisíveis” aos olhos alheios. Não me pediram dinheiro, não
disseram que estavam com fome ou frio. Antes de me dirigir ao carro, brinquei
com o cachorrinho e eles riram de novo.
Já sentada com a mão no volante eu me dei
conta que pra gente ser feliz a gente precisa de muito pouco, talvez só alguém
para sorrir junto altas horas da noite.
Juliana Aguiar
25/10/2013

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