quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Sorrisos na meia noite


O restaurante fechou. Os dois estavam lado a lado sempre sorrindo. Os olhos tinham ternura e os lábios a mais perfeita expressão de felicidade.
Eles caminhavam juntos empurrando o carrinho. O cachorrinho, que também os acompanhava, estava todo aos pulos, numa alegria que dava gosto de ver. Ao que parecia, era a primeira noite em que saía para passear. Tão tarde.
O casal era todo amor e isso se refletia no animal. Enquanto os donos andavam e andavam, lá ele estava. Abanando o rabo. Farejando a rua. Rolando na grama. Quando a moça e o rapaz pararam, ele sentou.
Estacionaram o carrinho de supermercado ao lado de duas grandes latas de lixo. Sem pestanejar, iniciaram os trabalhos. Latas de alumínio. Garrafas de vidro. Papelão. Do lixo para o carrinho.
O filhote olhava de um lado para o outro numa expressão de curiosidade contida, língua para fora e rabo sempre abanando. Quando algum dos dois falava com ele, ele latia baixinho, afinal sabia que já era muito tarde.
Eu, que saía do restaurante, presenciei toda a cena. Depois do medo, deu aquela dor no coração e um nó na garganta. Os dois olharam para mim desconfiados. Fiquei sem graça e acabei balbuciando um “boa noite”.
Eles simplesmente sorriram para mim e voltaram ao trabalho. Talvez tenha sido aquela a primeira vez em que eles deixaram de ser “invisíveis” aos olhos alheios. Não me pediram dinheiro, não disseram que estavam com fome ou frio. Antes de me dirigir ao carro, brinquei com o cachorrinho e eles riram de novo.
Já sentada com a mão no volante eu me dei conta que pra gente ser feliz a gente precisa de muito pouco, talvez só alguém para sorrir junto altas horas da noite.

Juliana Aguiar

25/10/2013

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